Duas décadas depois do boom do silicone no Brasil, parte das pacientes busca naturalidade, leveza e uma nova relação com o próprio corpo

    Nos anos 2000, colocar prótese de silicone era quase um rito de passagem para muitas jovens brasileiras. O Brasil se consolidava como um dos países que mais realizavam cirurgias plásticas no mundo, e o aumento de mama liderava os rankings.

    Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) mostram que o Brasil segue entre os três países com maior número de cirurgias mamárias realizadas anualmente. Ao mesmo tempo, cresce globalmente o número de procedimentos de retirada de implantes mamários, movimento que reflete não apenas questões médicas, mas também mudanças culturais e comportamentais.

    Vinte anos depois daquele primeiro implante, muitas dessas mulheres estão com 40, 45 anos e fazendo uma nova escolha.

    A cirurgiã plástica Dra. Pamela Massuia observa essa transformação no perfil das pacientes.
    “Não é arrependimento. É maturidade. A mulher que colocou prótese aos 20 está em outro momento de vida aos 40. O corpo mudou, a rotina mudou, a percepção sobre si mesma também.”

    Uma mudança que vai além da estética

    Segundo a ISAPS, os procedimentos mamários continuam entre os mais realizados no mundo, mas há um crescimento consistente nas cirurgias de remoção ou troca de implantes. Especialistas associam o fenômeno a três fatores principais:

    – Busca por naturalidade
    – Mudança no padrão estético
    – Informação ampliada sobre acompanhamento de próteses

    Se no início dos anos 2000 o volume acentuado era símbolo de feminilidade e status estético, hoje a palavra-chave é proporção.

    “A tendência atual é equilíbrio. Muitas pacientes relatam que não se identificam mais com o volume que escolheram aos 20 anos. Elas querem leveza, conforto, naturalidade”, explica Pamela.

    O que leva uma mulher a retirar a prótese?

    As motivações são variadas — e nem sempre clínicas.

    Entre os relatos mais comuns no consultório estão:
    – Desconforto físico com mamas volumosas
    – Mudanças após gravidez e amamentação
    – Alteração no estilo pessoal
    – Prática esportiva
    – Sensação de peso
    – Busca por estética mais discreta

    Em alguns casos, há também questões médicas, como contratura capsular (endurecimento da cápsula ao redor da prótese) ou ruptura do implante.

    É importante esclarecer que próteses modernas não têm um “prazo de validade obrigatório”, mas exigem acompanhamento periódico com exames de imagem, especialmente após 10 anos de colocação.

    “A retirada não é uma regra automática. Cada caso precisa ser avaliado com exame físico e exames de imagem. O que orientamos é acompanhamento regular e decisão consciente”, reforça a médica.

    Mini-case: quando o corpo já não representa quem você é

    Fernanda (nome fictício), 43 anos, colocou a prótese aos 22. Na época, trabalhava com eventos e buscava um padrão estético mais volumoso. Duas décadas depois, após duas gestações e mudança de carreira, decidiu retirar.

    “Eu sentia que aquele corpo não conversava mais comigo. Não era sobre dor, era sobre identidade”, relata.
    Segundo Pamela, esse tipo de relato é cada vez mais comum.

    “A cirurgia plástica acompanha fases da vida. A paciente amadurece, passa pela maternidade, pelo mercado de trabalho, por mudanças pessoais. É natural que a percepção corporal também evolua.”

    A cirurgia de retirada é simples?

    A remoção da prótese pode variar de complexidade dependendo do caso. Em algumas situações, realiza-se apenas a retirada do implante. Em outras, é indicada a remoção da cápsula (capsulectomia) ou associação com mastopexia (levantamento das mamas) para reposicionar o tecido mamário.

    Em determinados casos, pode-se utilizar gordura da própria paciente para manter contorno e proporção.
    “Não é apenas retirar o implante. É entender como aquela mama ficará depois. O planejamento cirúrgico é fundamental para preservar harmonia e autoestima”, explica Pamela.

    Como qualquer cirurgia, há riscos inerentes ao procedimento, como sangramento, infecção e alterações cicatriciais. Por isso, a avaliação individual é indispensável.

    Informação, não tendência

    Apesar de ganhar visibilidade nas redes sociais, especialistas alertam que a retirada de próteses não deve ser encarada como moda.

    O acompanhamento adequado e o diálogo com o cirurgião são decisivos.

    “Nem toda paciente precisa retirar o implante. Nem toda paciente que retira precisa colocar outro. O mais importante é que a decisão seja baseada em informação, exame e expectativa realista”, conclui a cirurgiã.
    Mais do que seguir tendências, o movimento reflete uma geração que amadureceu — e que hoje entende que estética também é escolha consciente.

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